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Mensagens

O portal

Eu lhe conto baixinho, porque certas coisas não gostam de ser ditas em voz alta. Foi numa tarde sem hora, dessas em que o céu parece suspenso por um fio de ouro, que o sertão me chamou pelo nome que nem eu lembrava mais. Caminhava devagar, sentindo o chão quente conversar com a sola dos meus pés, quando o vi: um portal feito de nada — só sombra, silêncio e um tremor de luz . Não era obra de gente. Era obra do mundo antes do mundo. O vento, ali, soprava com um jeito de reza antiga, dessas que a gente não entende mas o corpo entende. E eu, sem saber por quê, fui chegando perto, como quem volta para casa depois de séculos perdido. O portal respirava. Juro. Respirava como bicho vivo, abrindo e fechando a claridade num compasso que parecia o do meu próprio peito. E quando dei por mim, já estava tão perto que a sombra me tocou primeiro — fria, mas boa, como mão de avó que benze. Atravessei. Do outro lado, o sertão era o mesmo… só que não era. As árvores tinham um brilho de dentro, como se gu...
Mensagens recentes

A vigília do frio

Pois eu digo, e digo porque vi: aquele ano, o tempo desandou, o relógio de prata que rege o mundo deu um estalo no eixo e o Inverno, esse velho rabugento e alquebrado de frio, decidiu chegar antes da hora. As folhas ainda tentavam o bronze quando ele, o General-Gelo, arrombou as portas do mundo, dois meses antes do riscado. Foi uma judiaria, moço! Uma humidade penante, que vinha com as chuvas e entrava direto nos ossos e na alma das gentes, sem pedir licença. Antes que a lenha estivesse bem guardada nos galpões, as montanhas lá em cima, as terras mais altas onde o céu encosta no chão, já estavam coroadas de branco. Novembro mal tinha começado e a neve, essa tecelã que trabalha em silêncio, já cobria tudo com um lençol de mistério, tapando os trilhos e calando os pássaros que, coitados, nem tiveram tempo de bater asas para o calor. Mas o pior ainda estava por vir, Deus me livre e guarde. Perto do Natal, o céu rasgou de vez, sem dó. O solstício, que devia trazer a esperança da luz, troux...

A velha estrada

Pois eu digo, e digo porque vi: nesse mundo grande, onde a água corre para onde quer e o vento sopra para onde pode, existe um jeito certo de caminhar. E quem me ensinou isso não foi santo nem bicho — foi um boiadeiro velho, desses que carregam o tempo nas costas como quem leva boiada brava. Eu era moço ainda, moço de alma, mesmo sendo velho de corpo. Andava ligeiro, feito quem tem medo de perder o próprio rastro. Achava que pressa era força, que correr era destino. Mas numa tarde de céu amornado, encontrei o tal boiadeiro na beira do rio. Vinha ele montado num cavalo cansado, mas com olhar de quem já viu o começo e o fim do mundo. Trazia um sorriso manso, desses que só aparece depois que a gente já chorou tudo o que tinha pra chorar. — Ocê anda depressa demais, Velho — ele me disse, sem saber que eu já era rio antes de ser gente.   — A vida não gosta de quem atropela ela. Eu, meio desconfiado, perguntei o porquê.   E ele respondeu com uma calma que parecia reza: — P...

Retorno a si mesma

Foi num desses fins de tarde em que o céu parece rezar sozinho, que ela se virou para o mundo e para ele — e disse o adeus. Não gritou, não pediu licença: só deixou cair a palavra, feito folha seca que se desprende porque já cumpriu seu destino. Ele piscou, e ela já era longe. Sumida na poeira fina da estrada, como quem se dissolve no ar quente do sertão. Dizem que certas mulheres têm pacto com o vento: quando resolvem ir, o mundo não segura. Ela chorou, sim — mas lágrima pouca, lágrima de quem já chorou antes por dentro. Não era pranto de amor, era pranto de fim. E fim, no sertão, tem seu peso de pedra antiga. Vestiu-se sem luxo, mas com aquele cuidado de quem se prepara para atravessar um portal invisível. Passou perfume — não para ele, mas para si mesma, como quem unge o próprio destino. E saiu. Sem olhar para trás, porque olhar para trás é chamar assombração. Ele, quis que ela não fosse embora. Mas aquele pedido era igual a chuva de relâmpago: aparece, ilumina, mas não molha a terr...

Poeira do Saara

Alveja o sol no oriente, em lerdeza de fim de invernia, preguiçoso que só. Aos poucos, os raios de um gualdo-alaranjado vão se entremesclando no azul-vago, esse que desperta do orvalho e do frio da madrugada. Mas, no longe do horizonte, logo se divisa uma listra de cor estranha, descompassada do alvorecer. Um manto, desses de avó cobrir neto em dia de ventania — cobertura que abre portal de segurança e misticismo. Pois ali, aquela parede de treva que avassala os céus é o arauto, o aviso-mudo da força-poder do mundo natural. Enfim, a nuvem de poeira chega no silêncio de um fantasma, amortalhando casas, transportes e gentes, trazendo em si os milênios do pulsar de energia das areias do Saara. De tempos em tempos, esse rastro de deserto atravessa o mar para avisar a nós, bichos-homens miúdos, a vastidão da sabedoria da terra. Pois o pó, que parece sujeira, é na verdade o adubo, a fertilização-santa: minerais de lá, essenciais para o verde daqui, unindo o que o mundo separou. Senti, então,...

52 anos.

Aos cinquenta anos e dois de idade, me sinto é vereda e segredo, num simultâneo.  Caminho compridido de passos e tombos, de poeira e claridade; trago no corpo o sinal das pedras como quem carrega alforje — que o peso dele é o que o coração esquenta. Sei, por saber de mui uso, que o que deixo é semente e palavra, um legado de não se medir em troféus, mas em raízes que vingam no rastro onde pisei. Aprendo todo dia, miudinho e bruto, com o vento que ensina a espereza e com a noite que me puxa pela manga, guias de mim. E os sonhos continuam, em sufoços de verdade, dizendo que há um só sopro por trás do mundo e que atravessar é o que carece para se reconhecer a cara do mistério.  Assim sigo no rosto do sertão , inteiro de lembranças e de promessa, perquerindo ao chão e ao céu: que vereda ainda me chama?"

Dia de São Martinho

Pois então. Escute aqui o que o tempo conta. Chega que é dia de São Martinho, o santo de capa dividida. E o capricho do céu lhe faz uma festa: solta um verão de encanto, um calor de mentirinha no meio do outono que já se ia de todo. Dizem que foi o milagre do soldado e do mendigo, mas pra nós, simples mortais, é um derradeiro respiro, que Deus nos dá, pra a gente ajeitar o corpo e a alma pra o inverno que vem, de geada e saudade. Uma forma de agradecer o sol, que promete voltar, lá do norte, a nos visitar. Pelas esquinas e becos, sobe o cheiro da castanha assada, falando a língua do magusto. E a gente se aquece com um aguapé, licor que desce queimando, feito pra desatrapalhar a voz e contar causos. E a gente, lá no nosso acampamento de seis almas, no meio da pedraria de Lisboa, também quis botar lenha nessa fogueira, que fosse só de simbologia. Modernice, dizem. Mas tradição, mesmo, é o que o coração entende. Lá, entre quatro paredes, não tinha chão nem lar pra se assar castanha. Fomo-...