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Mensagens

A vigília do frio

Pois eu digo, e digo porque vi: aquele ano, o tempo desandou, o relógio de prata que rege o mundo deu um estalo no eixo e o Inverno, esse velho rabugento e alquebrado de frio, decidiu chegar antes da hora. As folhas ainda tentavam o bronze quando ele, o General-Gelo, arrombou as portas do mundo, dois meses antes do riscado. Foi uma judiaria, moço! Uma humidade penante, que vinha com as chuvas e entrava direto nos ossos e na alma das gentes, sem pedir licença. Antes que a lenha estivesse bem guardada nos galpões, as montanhas lá em cima, as terras mais altas onde o céu encosta no chão, já estavam coroadas de branco. Novembro mal tinha começado e a neve, essa tecelã que trabalha em silêncio, já cobria tudo com um lençol de mistério, tapando os trilhos e calando os pássaros que, coitados, nem tiveram tempo de bater asas para o calor. Mas o pior ainda estava por vir, Deus me livre e guarde. Perto do Natal, o céu rasgou de vez, sem dó. O solstício, que devia trazer a esperança da luz, troux...
Mensagens recentes

A velha estrada

Pois eu digo, e digo porque vi: nesse mundo grande, onde a água corre para onde quer e o vento sopra para onde pode, existe um jeito certo de caminhar. E quem me ensinou isso não foi santo nem bicho — foi um boiadeiro velho, desses que carregam o tempo nas costas como quem leva boiada brava. Eu era moço ainda, moço de alma, mesmo sendo velho de corpo. Andava ligeiro, feito quem tem medo de perder o próprio rastro. Achava que pressa era força, que correr era destino. Mas numa tarde de céu amornado, encontrei o tal boiadeiro na beira do rio. Vinha ele montado num cavalo cansado, mas com olhar de quem já viu o começo e o fim do mundo. Trazia um sorriso manso, desses que só aparece depois que a gente já chorou tudo o que tinha pra chorar. — Ocê anda depressa demais, Velho — ele me disse, sem saber que eu já era rio antes de ser gente.   — A vida não gosta de quem atropela ela. Eu, meio desconfiado, perguntei o porquê.   E ele respondeu com uma calma que parecia reza: — P...

Retorno a si mesma

Foi num desses fins de tarde em que o céu parece rezar sozinho, que ela se virou para o mundo e para ele — e disse o adeus. Não gritou, não pediu licença: só deixou cair a palavra, feito folha seca que se desprende porque já cumpriu seu destino. Ele piscou, e ela já era longe. Sumida na poeira fina da estrada, como quem se dissolve no ar quente do sertão. Dizem que certas mulheres têm pacto com o vento: quando resolvem ir, o mundo não segura. Ela chorou, sim — mas lágrima pouca, lágrima de quem já chorou antes por dentro. Não era pranto de amor, era pranto de fim. E fim, no sertão, tem seu peso de pedra antiga. Vestiu-se sem luxo, mas com aquele cuidado de quem se prepara para atravessar um portal invisível. Passou perfume — não para ele, mas para si mesma, como quem unge o próprio destino. E saiu. Sem olhar para trás, porque olhar para trás é chamar assombração. Ele, quis que ela não fosse embora. Mas aquele pedido era igual a chuva de relâmpago: aparece, ilumina, mas não molha a terr...

Poeira do Saara

Alveja o sol no oriente, em lerdeza de fim de invernia, preguiçoso que só. Aos poucos, os raios de um gualdo-alaranjado vão se entremesclando no azul-vago, esse que desperta do orvalho e do frio da madrugada. Mas, no longe do horizonte, logo se divisa uma listra de cor estranha, descompassada do alvorecer. Um manto, desses de avó cobrir neto em dia de ventania — cobertura que abre portal de segurança e misticismo. Pois ali, aquela parede de treva que avassala os céus é o arauto, o aviso-mudo da força-poder do mundo natural. Enfim, a nuvem de poeira chega no silêncio de um fantasma, amortalhando casas, transportes e gentes, trazendo em si os milênios do pulsar de energia das areias do Saara. De tempos em tempos, esse rastro de deserto atravessa o mar para avisar a nós, bichos-homens miúdos, a vastidão da sabedoria da terra. Pois o pó, que parece sujeira, é na verdade o adubo, a fertilização-santa: minerais de lá, essenciais para o verde daqui, unindo o que o mundo separou. Senti, então,...

52 anos.

Aos cinquenta anos e dois de idade, me sinto é vereda e segredo, num simultâneo.  Caminho compridido de passos e tombos, de poeira e claridade; trago no corpo o sinal das pedras como quem carrega alforje — que o peso dele é o que o coração esquenta. Sei, por saber de mui uso, que o que deixo é semente e palavra, um legado de não se medir em troféus, mas em raízes que vingam no rastro onde pisei. Aprendo todo dia, miudinho e bruto, com o vento que ensina a espereza e com a noite que me puxa pela manga, guias de mim. E os sonhos continuam, em sufoços de verdade, dizendo que há um só sopro por trás do mundo e que atravessar é o que carece para se reconhecer a cara do mistério.  Assim sigo no rosto do sertão , inteiro de lembranças e de promessa, perquerindo ao chão e ao céu: que vereda ainda me chama?"

Dia de São Martinho

Pois então. Escute aqui o que o tempo conta. Chega que é dia de São Martinho, o santo de capa dividida. E o capricho do céu lhe faz uma festa: solta um verão de encanto, um calor de mentirinha no meio do outono que já se ia de todo. Dizem que foi o milagre do soldado e do mendigo, mas pra nós, simples mortais, é um derradeiro respiro, que Deus nos dá, pra a gente ajeitar o corpo e a alma pra o inverno que vem, de geada e saudade. Uma forma de agradecer o sol, que promete voltar, lá do norte, a nos visitar. Pelas esquinas e becos, sobe o cheiro da castanha assada, falando a língua do magusto. E a gente se aquece com um aguapé, licor que desce queimando, feito pra desatrapalhar a voz e contar causos. E a gente, lá no nosso acampamento de seis almas, no meio da pedraria de Lisboa, também quis botar lenha nessa fogueira, que fosse só de simbologia. Modernice, dizem. Mas tradição, mesmo, é o que o coração entende. Lá, entre quatro paredes, não tinha chão nem lar pra se assar castanha. Fomo-...

Vá pensamento...

Acordei com o som de um saxofone imaginário, tocando dentro da minha cabeça, como se Coltrane tivesse invadido meus sonhos e deixado um rastro de ouro no teto do quarto. O sol ainda não tinha coragem de nascer, mas eu já estava na rua, com os bolsos vazios e o coração cheio de lembrança — lembrança da terra que nunca vi, mas que me chama como um grito antigo, como um nome esquecido. Va, pensiero, vai, pensamento, disse eu, sussurrando para o vento que soprava entre os prédios sujos da cidade. Vai, pensamento, voa com asas douradas sobre os telhados rachados, pousa nos morros onde o cheiro da infância ainda mora, mesmo que a infância tenha sido roubada por dívidas e cigarros e amores que não souberam ficar. Eu caminhava como quem procura redenção num beco sem saída. As margens do Jordão? Nunca vi. Mas sinto. Sinto como se estivessem dentro de mim, como se cada passo fosse uma saudação às torres de Sião, caídas como os sonhos dos poetas bêbados que escrevem com sangue e café. Ó minha pát...