Eu lhe conto baixinho, porque certas coisas não gostam de ser ditas em voz alta. Foi numa tarde sem hora, dessas em que o céu parece suspenso por um fio de ouro, que o sertão me chamou pelo nome que nem eu lembrava mais. Caminhava devagar, sentindo o chão quente conversar com a sola dos meus pés, quando o vi: um portal feito de nada — só sombra, silêncio e um tremor de luz . Não era obra de gente. Era obra do mundo antes do mundo. O vento, ali, soprava com um jeito de reza antiga, dessas que a gente não entende mas o corpo entende. E eu, sem saber por quê, fui chegando perto, como quem volta para casa depois de séculos perdido. O portal respirava. Juro. Respirava como bicho vivo, abrindo e fechando a claridade num compasso que parecia o do meu próprio peito. E quando dei por mim, já estava tão perto que a sombra me tocou primeiro — fria, mas boa, como mão de avó que benze. Atravessei. Do outro lado, o sertão era o mesmo… só que não era. As árvores tinham um brilho de dentro, como se gu...
Pois eu digo, e digo porque vi: aquele ano, o tempo desandou, o relógio de prata que rege o mundo deu um estalo no eixo e o Inverno, esse velho rabugento e alquebrado de frio, decidiu chegar antes da hora. As folhas ainda tentavam o bronze quando ele, o General-Gelo, arrombou as portas do mundo, dois meses antes do riscado. Foi uma judiaria, moço! Uma humidade penante, que vinha com as chuvas e entrava direto nos ossos e na alma das gentes, sem pedir licença. Antes que a lenha estivesse bem guardada nos galpões, as montanhas lá em cima, as terras mais altas onde o céu encosta no chão, já estavam coroadas de branco. Novembro mal tinha começado e a neve, essa tecelã que trabalha em silêncio, já cobria tudo com um lençol de mistério, tapando os trilhos e calando os pássaros que, coitados, nem tiveram tempo de bater asas para o calor. Mas o pior ainda estava por vir, Deus me livre e guarde. Perto do Natal, o céu rasgou de vez, sem dó. O solstício, que devia trazer a esperança da luz, troux...