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A mostrar mensagens de julho, 2025

A Boca do Inferno - Parte 2: O cavaleiro e o sal.

Parte II: O Cavaleiro e o Sal Chamava-se ele Sirgílio, o cavaleiro que guardava sem saber. Homem de poucas falas, criado entre monges e marés, com o rosto sempre virado para o poente, como quem espera que o sol lhe diga um segredo. Não sabia de amor, nem de beleza — só sabia de vigiar, de obedecer, de calar. Mas o tempo, esse bicho que rói tudo, até a pedra, foi-lhe roendo a curiosidade. E um dia, quando o vento sussurrava nomes que ele não conhecia, Sirgílio abriu a cela. E viu. Ela chamava-se Mariana, mas o nome era pouco para o que ela era. Era feita de luz que escapa entre as frestas, de cheiro de flor que só nasce em sonho. Os olhos dela — ah, os olhos! — tinham a cor do mar quando o céu está triste. — Quem sois? — perguntou ele, com a voz que parecia pedra rolando. — Sou a que foi tirada do mundo — disse ela, sem medo. — E tu? — Sou o que nunca soube ser. E nesse instante, o tempo parou. Ou fingiu que parava, só pra ouvir melhor. Fugiram. Montaram no cavalo branco, que se chamava...

o mestre invisível

O vento, que não era só vento, mas também voz e também memória, soprava por entre as muralhas de Tomar como quem sabe demais e diz de menos, como quem já viu o princípio e o fim e ainda assim continua soprando, porque é da sua natureza não parar, e quem somos nós para contrariar o que é vento? E o sol, esse que não brilha por vaidade mas por ofício, filtrava-se tímido, quase envergonhado, por entre as frestas do tempo, como quem pede licença para existir, e existia, sim, mas em partículas, em farelos de luz que dançavam como incenso em templo esquecido. E o homem, que não era homem comum, mas também não era santo, nem cavaleiro por nome, mas por alma, esse homem despertava, ou melhor, voltava, porque há quem durma e há quem viaje, e ele viajava, não por estrada, mas por dentro, por dentro de si e por fora do mundo, e voltava agora, devagar, como quem retorna de um lugar onde o tempo não tem pressa e o silêncio tem nome. O corpo, esse que é sempre mais lento que a alma, esperava, e a al...

A boca do Inferno - parte 1: a lenda

Parte 1 - A lenda Era tempo de antes do tempo, quando o mar ainda não sabia o nome das ondas e os homens andavam com mais medo do céu do que da terra. Pois ali, rente ao sal e à pedra, onde hoje se diz Cascais, havia um lugar que nem era lugar — era rasgo, era fenda, era ferida aberta no mundo. E chamavam-lhe, depois, Boca do Inferno. Mas antes disso, era só o esconderijo do feio. Feio, sim. Mas não feio de feição apenas — feio de alma, de feitio, de feitiço. Um homem que não era bem homem, mas sombra de homem, com olhos de vidro e uma bola de cristal que via mais do que devia. Morava num castelo que não se via, porque se escondia entre os ventos e os gritos das gaivotas. E esse homem, um dia, quis casar. — Quero a mais bela — disse ele à bola, que girava e brilhava como olho de serpente. E a bola mostrou-lhe: uma menina de luz, nascida em Cascais, com cabelos de sol e voz de água doce. O feio não foi — mandou. Um cavaleiro, de ferro e silêncio, foi buscá-la. Raptou-a como se colhesse ...

A moça do chá

Todas as manhãs, insólitas e repetidas, como quem caminha não só por fora mas por dentro de si, ele cruzava o trecho da rua onde se encostava, discreta e ancestral, uma tenda de chás e especiarias. Não era comércio apenas — era rito. Mesmo quando cerrada, a tenda exalava vapores invisíveis, aromas que se desprendiam das paredes como almas de ervas, pairando no ar feito encantamento. Os cheiros, esses sim, não respeitavam fronteiras: saíam, dançavam, saudavam os passantes com reverência de templo. E quem passava, mesmo sem saber, se curvava — não ao lugar, mas ao mistério. A moça, quase sempre à porta, era figura de aparição. Alta, cabelos longos e loiros como palha de sol, sorriso de quem sabe mais do que diz. Seus olhos, atentos, não olhavam: escaneavam. Como radar de alma, ela lia o coração dos que vinham, e oferecia não chá, mas consolo. Era ciência e feitiço. Dizia, com voz de brisa: — Hoje, chá preto. Forte. Estimulante. Pra acordar o que dorme em você. Noutra feita, vinha com roo...

O Relicário das Horas Perdidas

Aguiar, miúda de corpo mas grande de brio, se assenta no chão quente do Alentejo como quem se deita de olhos abertos, vigiando Viana do Alentejo — que é vizinha, sim, mas dessas vizinhanças que se olham de lado, com sorriso de canto de boca e faca de pão na cintura. Rivalidade antiga, daquelas que não se sabe se nasceu de um jogo de malha ou de um olhar atravessado no adro. Pois foi nesse Aguiar que o povo, de fé e suor, se ajuntou em causa santa: pôr um relógio na torre da igreja. Que o tempo, até então, era coisa de adivinhar pelo sol ou pelo sino, e o sino, coitado, já andava rouco de tanto ser puxado. O padre, homem de verbo e de manha, lançou a ideia como quem semeia milho em terra boa — e o povo, que é de dar quando sente que é seu, foi pondo escudos, tostões, vontades. O tempo passou, como sempre passa, e o padre, um dia, anunciou: “Vou-me ausentar por uns dias, mas o relógio vem. Deixam-no na sacristia. Vão lá ver, que é coisa fina.” E foi-se, deixando a promessa a pairar no ar...

"O homem que dançava com o escuro"

A viagem conduzirá a teu ser, transmutará teu pó em ouro puro. [Rami] Contam que um homem, desses de olhar encalhado na distância, se perdeu certo dia não por erro, mas por vontade. Chamava-se Nada, apelido que ganhou por ter carregado a vida inteira um silêncio maior que ele. Foi andando, beirando as dobras do cerrado, por vereda que se fazia e desfazia, feito pensamento antigo. Até que encontrou o Ancião, um desses que não envelhece: só muda de poeira. O velho, sentado numa pedra de tempo, disse: — Vem. Te ensino sem palavra, onde é que gira essa dança. Nada, acostumado ao calado, estranhou um convite sem boca. Mas sentiu, pelos pés, que a terra sabia mais do que qualquer voz. — Olha — disse o velho, apontando o vazio cheio — as poeiras, os insetos, até as sombras... tudo dança sem saber por quê. Mas sabe. Porque ama. E Nada viu que girava também, mesmo parado. O velho continuou: — Tu és feito de camadas. Foste pedra, depois raiz, depois bicho. Agora és homem. E ainda assim, acha que...