Parte II: O Cavaleiro e o Sal Chamava-se ele Sirgílio, o cavaleiro que guardava sem saber. Homem de poucas falas, criado entre monges e marés, com o rosto sempre virado para o poente, como quem espera que o sol lhe diga um segredo. Não sabia de amor, nem de beleza — só sabia de vigiar, de obedecer, de calar. Mas o tempo, esse bicho que rói tudo, até a pedra, foi-lhe roendo a curiosidade. E um dia, quando o vento sussurrava nomes que ele não conhecia, Sirgílio abriu a cela. E viu. Ela chamava-se Mariana, mas o nome era pouco para o que ela era. Era feita de luz que escapa entre as frestas, de cheiro de flor que só nasce em sonho. Os olhos dela — ah, os olhos! — tinham a cor do mar quando o céu está triste. — Quem sois? — perguntou ele, com a voz que parecia pedra rolando. — Sou a que foi tirada do mundo — disse ela, sem medo. — E tu? — Sou o que nunca soube ser. E nesse instante, o tempo parou. Ou fingiu que parava, só pra ouvir melhor. Fugiram. Montaram no cavalo branco, que se chamava...