Eu lhe conto baixinho, porque certas coisas não gostam de ser ditas em voz alta.
Foi numa tarde sem hora, dessas em que o céu parece suspenso por um fio de ouro, que o sertão me chamou pelo nome que nem eu lembrava mais. Caminhava devagar, sentindo o chão quente conversar com a sola dos meus pés, quando o vi: um portal feito de nada — só sombra, silêncio e um tremor de luz.
Não era obra de gente.
Era obra do mundo antes do mundo.
O vento, ali, soprava com um jeito de reza antiga, dessas que a gente não entende mas o corpo entende. E eu, sem saber por quê, fui chegando perto, como quem volta para casa depois de séculos perdido.
O portal respirava.
Juro.
Respirava como bicho vivo, abrindo e fechando a claridade num compasso que parecia o do meu próprio peito. E quando dei por mim, já estava tão perto que a sombra me tocou primeiro — fria, mas boa, como mão de avó que benze.
Atravessei.
Do outro lado, o sertão era o mesmo… só que não era.
As árvores tinham um brilho de dentro, como se guardassem estrelas presas no tronco. O ar tinha gosto de madrugada. E o silêncio — ah, o silêncio! — vinha cheio de vozes que não falavam, mas diziam.
Senti que deixei algo para trás.
Um nome velho, uma tristeza antiga, um peso que eu carregava sem saber.
E ganhei outra coisa no lugar: um lume miúdo dentro dos olhos, desses que não se apagam nem com chuva, nem com tempo, nem com morte.
Desde então, ando por aí com essa claridade escondida, feito segredo de santo.
E aprendi uma verdade que só quem atravessa entende:
os portais não levam a outro lugar — levam a outra versão de nós mesmos.