Pois eu digo, e digo porque vi: aquele ano, o tempo desandou, o relógio de prata que rege o mundo deu um estalo no eixo e o Inverno, esse velho rabugento e alquebrado de frio, decidiu chegar antes da hora. As folhas ainda tentavam o bronze quando ele, o General-Gelo, arrombou as portas do mundo, dois meses antes do riscado. Foi uma judiaria, moço! Uma humidade penante, que vinha com as chuvas e entrava direto nos ossos e na alma das gentes, sem pedir licença. Antes que a lenha estivesse bem guardada nos galpões, as montanhas lá em cima, as terras mais altas onde o céu encosta no chão, já estavam coroadas de branco. Novembro mal tinha começado e a neve, essa tecelã que trabalha em silêncio, já cobria tudo com um lençol de mistério, tapando os trilhos e calando os pássaros que, coitados, nem tiveram tempo de bater asas para o calor.
Mas o pior ainda estava por vir, Deus me livre e guarde. Perto do Natal, o céu rasgou de vez, sem dó. O solstício, que devia trazer a esperança da luz, trouxe uma nevasca, uma muralha de cristal que isolou tudo e todos, transformando o mundo num deserto de silêncio e brancura. E a chuva, ah, a chuva... Antes caía mansa, uma bênção, mas virou aço líquido, fustigando as janelas das casas e transbordando os rios, que já não sabiam onde guardar tanta água, tanta mágoa. E depois, foi uma procissão de gigantes, uma dança de tempestades fustigantes que pareciam espíritos mal-assombrados soltos na imensidão. Os sábios lá da cidade tentaram dar ordem ao caos, dando nomes de gentes, de homens e mulheres, para cada tormenta que passava, seguindo a ordem do abecedário, mas de A a Z, os nomes se gastaram, se acabaram como fogueira no final da noite.
E vou lhe contar um segredo que ouvi no vento, moço: enquanto as tormentas com nomes de homens rugiam com força bruta, como um bicho acuado, eram as que tinham nomes de mulher as que demonstravam uma fúria avassaladora, uma ira que vinha lá do fundo da terra, como se a própria Natureza, na sua face mais feminina e poderosa, estivesse cobrando uma dívida antiga através de inundações e vendavais impiedosos. E o pior é que, mesmo quando a primavera anunciou sua chegada no calendário, a coitada parecia estar com medo de acordar. O tempo de calor e flores passou, mas as flores, ah, as flores, continuaram prisioneiras sob a lama gelada, com medo de despontar. O frio e a chuva, veteranos e donos da terra, recusavam-se a ceder o trono. Foi um tempo de paciência, de testar a resistência do fogo que cada um carrega dentro de si. A gente aprendeu, naquele ano de sombras, que o tempo não é uma linha reta, não, é um ciclo, um redemoinho que, às vezes, decide mergulhar no abismo antes de reencontrar a luz. E eu sei, moço, eu sei, porque eu vi.