Avançar para o conteúdo principal

Retorno a si mesma


Foi num desses fins de tarde em que o céu parece rezar sozinho, que ela se virou para o mundo e para ele — e disse o adeus.

Não gritou, não pediu licença: só deixou cair a palavra, feito folha seca que se desprende porque já cumpriu seu destino.

Ele piscou, e ela já era longe.

Sumida na poeira fina da estrada, como quem se dissolve no ar quente do sertão.

Dizem que certas mulheres têm pacto com o vento: quando resolvem ir, o mundo não segura.

Ela chorou, sim — mas lágrima pouca, lágrima de quem já chorou antes por dentro.

Não era pranto de amor, era pranto de fim.

E fim, no sertão, tem seu peso de pedra antiga.

Vestiu-se sem luxo, mas com aquele cuidado de quem se prepara para atravessar um portal invisível.

Passou perfume — não para ele, mas para si mesma, como quem unge o próprio destino.


E saiu.


Sem olhar para trás, porque olhar para trás é chamar assombração.

Ele, quis que ela não fosse embora.

Mas aquele pedido era igual a chuva de relâmpago: aparece, ilumina, mas não molha a terra.

E ela já sabia.

Sabia antes dele.

Sabia desde sempre.

No sertão, quem sente primeiro é quem parte primeiro.


E ela?

Seguiu.

Porque certas mulheres, quando dizem adeus, não vão embora: voltam para si mesmas.

Mensagens populares deste blogue

O vento e o tempo.

O vento, que não era só vento, mas também voz e também memória, soprava por entre as muralhas de Tomar como quem sabe demais e diz de menos, como quem já viu o princípio e o fim e ainda assim continua soprando, porque é da sua natureza não parar, e quem somos nós para contrariar o que é vento? E o sol, esse que não brilha por vaidade mas por ofício, filtrava-se tímido, quase envergonhado, por entre as frestas do tempo, como quem pede licença para existir, e existia, sim, mas em partículas, em farelos de luz que dançavam como incenso em templo esquecido. E o homem, que não era homem comum, mas também não era santo, nem cavaleiro por nome, mas por alma, esse homem despertava, ou melhor, voltava, porque há quem durma e há quem viaje, e ele viajava, não por estrada, mas por dentro, por dentro de si e por fora do mundo, e voltava agora, devagar, como quem retorna de um lugar onde o tempo não tem pressa e o silêncio tem nome. O corpo, esse que é sempre mais lento que a alma, esperava, e a al...

Fio invisível - primeiro movimento

Foi assim, sem alarde e sem pressa, que ele cruzou o limiar do escritório, um espaço que até então lhe era vedado, como se houvesse uma ordem tácita que separava aqueles que vendiam daqueles que compravam, e agora, por um instante, esse véu de separação se desfazia. Carregava consigo suas malas de mostruário, um pequeno universo de tecidos que, dobrados e organizados, aguardavam o momento de revelação, e ali, entre mesas de trabalho e cadeiras que mantinham sua posição sem jamais reclamar cansaço, encontrou um espaço suficiente para abrir seu arsenal de cores, texturas, padrões, cada tecido trazendo consigo um fragmento de história, mãos que os haviam tecido, olhos que os haviam escolhido, vidas que se desenrolavam na trama silenciosa dos fios. As mulheres ali presentes — uma, talvez a dona da loja, a outra jovem, bela, loira de cabelos longos — trabalhavam alheias à sua presença, mergulhadas em cálculos, notas fiscais, papéis que ordenavam o fluxo do comércio, mas à medida que ele com...