Foi num desses fins de tarde em que o céu parece rezar sozinho, que ela se virou para o mundo e para ele — e disse o adeus.
Não gritou, não pediu licença: só deixou cair a palavra, feito folha seca que se desprende porque já cumpriu seu destino.
Ele piscou, e ela já era longe.
Sumida na poeira fina da estrada, como quem se dissolve no ar quente do sertão.
Dizem que certas mulheres têm pacto com o vento: quando resolvem ir, o mundo não segura.
Ela chorou, sim — mas lágrima pouca, lágrima de quem já chorou antes por dentro.
Não era pranto de amor, era pranto de fim.
E fim, no sertão, tem seu peso de pedra antiga.
Vestiu-se sem luxo, mas com aquele cuidado de quem se prepara para atravessar um portal invisível.
Passou perfume — não para ele, mas para si mesma, como quem unge o próprio destino.
E saiu.
Sem olhar para trás, porque olhar para trás é chamar assombração.
Ele, quis que ela não fosse embora.
Mas aquele pedido era igual a chuva de relâmpago: aparece, ilumina, mas não molha a terra.
E ela já sabia.
Sabia antes dele.
Sabia desde sempre.
No sertão, quem sente primeiro é quem parte primeiro.
E ela?
Seguiu.
Porque certas mulheres, quando dizem adeus, não vão embora: voltam para si mesmas.
