Naquela manhã, que não era azul nem cinza nem qualquer outra cor que se possa nomear com precisão, pois o céu se apresentava como uma paleta de tons indecisos, como se o pintor tivesse deixado a obra inacabada ou, quem sabe, tivesse mudado de ideia no último instante, os sons pareciam vir de longe, não por distância física, mas por uma espécie de recuo da realidade, como se o mundo tivesse decidido falar mais baixo, talvez por respeito, talvez por cansaço, e entre os diálogos que se travavam entre ele e a parceira, diálogos que não eram apenas palavras mas também silêncios e olhares e gestos que se entendem sem tradução, ele filosofava, como costumava fazer, sobre o acaso, esse velho conhecido que se disfarça de surpresa, e sobre as armadilhas que o destino, com sua paciência infinita, coloca diante de nós como quem joga xadrez com o tempo, e citou, não com revolta mas com uma espécie de resignação crítica, a quantidade de noticiários que se dedicavam às tragédias sociais, como se o so...