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A velha estrada

Pois eu digo, e digo porque vi: nesse mundo grande, onde a água corre para onde quer e o vento sopra para onde pode, existe um jeito certo de caminhar. E quem me ensinou isso não foi santo nem bicho — foi um boiadeiro velho, desses que carregam o tempo nas costas como quem leva boiada brava.

Eu era moço ainda, moço de alma, mesmo sendo velho de corpo. Andava ligeiro, feito quem tem medo de perder o próprio rastro. Achava que pressa era força, que correr era destino. Mas numa tarde de céu amornado, encontrei o tal boiadeiro na beira do rio.

Vinha ele montado num cavalo cansado, mas com olhar de quem já viu o começo e o fim do mundo. Trazia um sorriso manso, desses que só aparece depois que a gente já chorou tudo o que tinha pra chorar.

— Ocê anda depressa demais, Velho — ele me disse, sem saber que eu já era rio antes de ser gente.  
— A vida não gosta de quem atropela ela.

Eu, meio desconfiado, perguntei o porquê.  
E ele respondeu com uma calma que parecia reza:

— Porque quem corre não vê as manhãs. E quem não vê as manhãs não aprende as manhas.

Aquilo me bateu no peito como pedra jogada na água parada.  
Fez onda.  
Fez eco.

O boiadeiro desmontou, pegou um punhado de terra e deixou escorrer entre os dedos.

— A gente só sabe mesmo é um tiquinho, Velho. O resto é invenção da cabeça. O mundo é grande demais pra caber num só entendimento.

Depois me ofereceu um pedaço de pão duro e uma maçã pequena, vermelha como coração de onça. Disse:

— Tem que provar do doce e do amargo, do mole e do duro. Senão a alma fica manca.

Eu ri, achando graça da fala.  
Mas ele não riu.

— Pra flor abrir, precisa de chuva. Pra gente sorrir, precisa de paz. E pra paz chegar, precisa de amor. Não tem atalho.

Ficamos ali, olhando o rio correr.  
Ele me contou que cada pessoa carrega dentro de si um dom escondido, um brilho que só aparece quando a vida aperta. Disse que todo mundo chega um dia, e vai embora no outro — mas que o importante é o que se deixa no meio do caminho.

— A estrada, Velho… a estrada não é lugar. É jeito de ser.

E antes de partir, me olhou fundo, como quem enxerga o que nem existe ainda:

— Quando ocê aprender a andar devagar, vai entender tudo. Porque estrada… estrada a gente não percorre. Estrada a gente é.

E foi embora, sumindo na poeira mansa do entardecer.

Desde esse dia, aprendi a caminhar no passo certo do mundo.  
Devagar, porque já tive pressa.  
Sorrindo, porque já chorei demais.

E se hoje conto esse causo, é porque sei:  
o boiadeiro era mais que homem.  
Era aviso.  
Era destino.  
Era encantaria disfarçada de gente.

E eu, Velho do Rio, que já vi tanta coisa que nem conto, digo com certeza:

— Quem não aprende a andar devagar, não aprende a viver.

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