Acordei com o som de um saxofone imaginário, tocando dentro da minha cabeça, como se Coltrane tivesse invadido meus sonhos e deixado um rastro de ouro no teto do quarto. O sol ainda não tinha coragem de nascer, mas eu já estava na rua, com os bolsos vazios e o coração cheio de lembrança — lembrança da terra que nunca vi, mas que me chama como um grito antigo, como um nome esquecido. Va, pensiero, vai, pensamento, disse eu, sussurrando para o vento que soprava entre os prédios sujos da cidade. Vai, pensamento, voa com asas douradas sobre os telhados rachados, pousa nos morros onde o cheiro da infância ainda mora, mesmo que a infância tenha sido roubada por dívidas e cigarros e amores que não souberam ficar. Eu caminhava como quem procura redenção num beco sem saída. As margens do Jordão? Nunca vi. Mas sinto. Sinto como se estivessem dentro de mim, como se cada passo fosse uma saudação às torres de Sião, caídas como os sonhos dos poetas bêbados que escrevem com sangue e café. Ó minha pát...