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Mensagens

A mostrar mensagens de março, 2026

A vigília do frio

Pois eu digo, e digo porque vi: aquele ano, o tempo desandou, o relógio de prata que rege o mundo deu um estalo no eixo e o Inverno, esse velho rabugento e alquebrado de frio, decidiu chegar antes da hora. As folhas ainda tentavam o bronze quando ele, o General-Gelo, arrombou as portas do mundo, dois meses antes do riscado. Foi uma judiaria, moço! Uma humidade penante, que vinha com as chuvas e entrava direto nos ossos e na alma das gentes, sem pedir licença. Antes que a lenha estivesse bem guardada nos galpões, as montanhas lá em cima, as terras mais altas onde o céu encosta no chão, já estavam coroadas de branco. Novembro mal tinha começado e a neve, essa tecelã que trabalha em silêncio, já cobria tudo com um lençol de mistério, tapando os trilhos e calando os pássaros que, coitados, nem tiveram tempo de bater asas para o calor. Mas o pior ainda estava por vir, Deus me livre e guarde. Perto do Natal, o céu rasgou de vez, sem dó. O solstício, que devia trazer a esperança da luz, troux...

A velha estrada

Pois eu digo, e digo porque vi: nesse mundo grande, onde a água corre para onde quer e o vento sopra para onde pode, existe um jeito certo de caminhar. E quem me ensinou isso não foi santo nem bicho — foi um boiadeiro velho, desses que carregam o tempo nas costas como quem leva boiada brava. Eu era moço ainda, moço de alma, mesmo sendo velho de corpo. Andava ligeiro, feito quem tem medo de perder o próprio rastro. Achava que pressa era força, que correr era destino. Mas numa tarde de céu amornado, encontrei o tal boiadeiro na beira do rio. Vinha ele montado num cavalo cansado, mas com olhar de quem já viu o começo e o fim do mundo. Trazia um sorriso manso, desses que só aparece depois que a gente já chorou tudo o que tinha pra chorar. — Ocê anda depressa demais, Velho — ele me disse, sem saber que eu já era rio antes de ser gente.   — A vida não gosta de quem atropela ela. Eu, meio desconfiado, perguntei o porquê.   E ele respondeu com uma calma que parecia reza: — P...

Retorno a si mesma

Foi num desses fins de tarde em que o céu parece rezar sozinho, que ela se virou para o mundo e para ele — e disse o adeus. Não gritou, não pediu licença: só deixou cair a palavra, feito folha seca que se desprende porque já cumpriu seu destino. Ele piscou, e ela já era longe. Sumida na poeira fina da estrada, como quem se dissolve no ar quente do sertão. Dizem que certas mulheres têm pacto com o vento: quando resolvem ir, o mundo não segura. Ela chorou, sim — mas lágrima pouca, lágrima de quem já chorou antes por dentro. Não era pranto de amor, era pranto de fim. E fim, no sertão, tem seu peso de pedra antiga. Vestiu-se sem luxo, mas com aquele cuidado de quem se prepara para atravessar um portal invisível. Passou perfume — não para ele, mas para si mesma, como quem unge o próprio destino. E saiu. Sem olhar para trás, porque olhar para trás é chamar assombração. Ele, quis que ela não fosse embora. Mas aquele pedido era igual a chuva de relâmpago: aparece, ilumina, mas não molha a terr...

Poeira do Saara

Alveja o sol no oriente, em lerdeza de fim de invernia, preguiçoso que só. Aos poucos, os raios de um gualdo-alaranjado vão se entremesclando no azul-vago, esse que desperta do orvalho e do frio da madrugada. Mas, no longe do horizonte, logo se divisa uma listra de cor estranha, descompassada do alvorecer. Um manto, desses de avó cobrir neto em dia de ventania — cobertura que abre portal de segurança e misticismo. Pois ali, aquela parede de treva que avassala os céus é o arauto, o aviso-mudo da força-poder do mundo natural. Enfim, a nuvem de poeira chega no silêncio de um fantasma, amortalhando casas, transportes e gentes, trazendo em si os milênios do pulsar de energia das areias do Saara. De tempos em tempos, esse rastro de deserto atravessa o mar para avisar a nós, bichos-homens miúdos, a vastidão da sabedoria da terra. Pois o pó, que parece sujeira, é na verdade o adubo, a fertilização-santa: minerais de lá, essenciais para o verde daqui, unindo o que o mundo separou. Senti, então,...