Pois então. Escute aqui o que o tempo conta.
Chega que é dia de São Martinho, o santo de capa dividida. E o capricho do céu lhe faz uma festa: solta um verão de encanto, um calor de mentirinha no meio do outono que já se ia de todo. Dizem que foi o milagre do soldado e do mendigo, mas pra nós, simples mortais, é um derradeiro respiro, que Deus nos dá, pra a gente ajeitar o corpo e a alma pra o inverno que vem, de geada e saudade. Uma forma de agradecer o sol, que promete voltar, lá do norte, a nos visitar.
Pelas esquinas e becos, sobe o cheiro da castanha assada, falando a língua do magusto. E a gente se aquece com um aguapé, licor que desce queimando, feito pra desatrapalhar a voz e contar causos.
E a gente, lá no nosso acampamento de seis almas, no meio da pedraria de Lisboa, também quis botar lenha nessa fogueira, que fosse só de simbologia. Modernice, dizem. Mas tradição, mesmo, é o que o coração entende. Lá, entre quatro paredes, não tinha chão nem lar pra se assar castanha. Fomo-la buscar na rua, no tabuleiro do homem que a vende, com seu pregão quente que chama a gente: "Vá, que é bom e tira o frio da alma!".
Da bebida, uma garrafa se postava, de um licor antigo, de cor de mel e de fogo. Só os de menos pejo, os de alma mais solta, é que lhe deram guarida. Os outros, os de mais cerimônia, se contentaram com um chá de erva-doce, que sossega o pensamento, ou um sumo de fruta, doce e sem segredos.
E no fim, o que ficou não foi o gosto da castanha nem da pinga. Foi um calor diferente, um calor que mora por dentro do peito. A gente, ali, seis pessoas miúdas no meio do mundo grande, guardamos a chama de uma história antiga, dessas que a gente nem sabe bem de onde vem, mas que aquece a gente por dentro. Uma tradição de São Martinho, de magusto, de partilhar o pão e o fogo. Controversa, talvez. Mas nossa, por enquanto. E isso bastou.