Alveja o sol no oriente, em lerdeza de fim de invernia, preguiçoso que só. Aos poucos, os raios de um gualdo-alaranjado vão se entremesclando no azul-vago, esse que desperta do orvalho e do frio da madrugada. Mas, no longe do horizonte, logo se divisa uma listra de cor estranha, descompassada do alvorecer. Um manto, desses de avó cobrir neto em dia de ventania — cobertura que abre portal de segurança e misticismo. Pois ali, aquela parede de treva que avassala os céus é o arauto, o aviso-mudo da força-poder do mundo natural.
Enfim, a nuvem de poeira chega no silêncio de um fantasma, amortalhando casas, transportes e gentes, trazendo em si os milênios do pulsar de energia das areias do Saara. De tempos em tempos, esse rastro de deserto atravessa o mar para avisar a nós, bichos-homens miúdos, a vastidão da sabedoria da terra. Pois o pó, que parece sujeira, é na verdade o adubo, a fertilização-santa: minerais de lá, essenciais para o verde daqui, unindo o que o mundo separou.
Senti, então, um estremecimento de alma, um não-sei-quê de pertencimento. Naquele poeiral de séculos, percebi que o ar que me entrava nos peitos não era apenas sopro, mas o próprio tempo moído, o deserto se fazendo carne e espírito em mim. O Saara não estava longe; ele me habitava, me transfundia o sagrado de terras nunca vistas, numa comunhão de poeira e luz.
Fechei os olhos para enxergar melhor. Vi o invisível: as árvores aqui bebendo o sol do Egito, as flores brotando de uma areia que viajou nas asas de anjos-ventos. Era a natureza me sussurrando que tudo é um, um-em-tudo, e que a distância é só uma invenção do medo humano para não entendermos a imensidão de Deus.
Ali, parado no meio do mundo que se tornara cinza e ouro, deixei de ser o que era. Fui grão, fui duna, fui árvore agradecida. Entendi que a vida é esse atravessamento constante, esse portal que se abre no meio do dia para nos lembrar que o mistério não mora no longe, mas no respirar de cada poeirinha que o destino nos manda. O mundo, senhor, é muito grande, mas cabe inteirinho dentro de um silêncio bem guardado.