Aguiar, miúda de corpo mas grande de brio, se assenta no chão quente do Alentejo como quem se deita de olhos abertos, vigiando Viana do Alentejo — que é vizinha, sim, mas dessas vizinhanças que se olham de lado, com sorriso de canto de boca e faca de pão na cintura. Rivalidade antiga, daquelas que não se sabe se nasceu de um jogo de malha ou de um olhar atravessado no adro.
Pois foi nesse Aguiar que o povo, de fé e suor, se ajuntou em causa santa: pôr um relógio na torre da igreja. Que o tempo, até então, era coisa de adivinhar pelo sol ou pelo sino, e o sino, coitado, já andava rouco de tanto ser puxado. O padre, homem de verbo e de manha, lançou a ideia como quem semeia milho em terra boa — e o povo, que é de dar quando sente que é seu, foi pondo escudos, tostões, vontades.
O tempo passou, como sempre passa, e o padre, um dia, anunciou: “Vou-me ausentar por uns dias, mas o relógio vem. Deixam-no na sacristia. Vão lá ver, que é coisa fina.” E foi-se, deixando a promessa a pairar no ar como cheiro de pão quente.
Chegado o dia, apareceu uma caixa. Grande, pesada, com ar de mistério. Um paroquiano viu, espalhou a nova como quem espalha pólvora em palha seca. O povo acudiu, em tropel, em fé, em festa. E no meio do empurra-empurra, uma senhora, de olhos faiscando e cotovelos em riste, gritou a frase que ficou para sempre: “Deixem passar, que o meu marido também tem parte!”
Abriram a caixa. E o que saiu de lá não foi tempo, nem ponteiros, nem badalos. Saiu foi um monte de cornos. Sim, cornos. De boi, de cabra, de riso e de vergonha. Um relicário de zombaria.
Dizem que foi troça dos de Viana. Que o padre, talvez cúmplice, talvez vítima, sumiu-se por uns tempos. E os vianenses, desde então, sempre que punham pé em Aguiar, perguntavam com cara de anjo e riso de diabo: “Que horas são?”
E os de Aguiar, feridos no orgulho e na honra, respondiam com olhos faiscando e mãos fechadas: “Levante os cornos, seu cabrão!”
Hoje, a torre tem relógio. Bonito, redondo, pontual. Mas a história ficou — como ficam as lendas, os ditos, os risos que doem. Porque no fundo, o tempo passa, mas a memória... essa, não tem ponteiro que a alcance.