Parte 1 - A lenda
Era tempo de antes do tempo, quando o mar ainda não sabia o nome das ondas e os homens andavam com mais medo do céu do que da terra. Pois ali, rente ao sal e à pedra, onde hoje se diz Cascais, havia um lugar que nem era lugar — era rasgo, era fenda, era ferida aberta no mundo. E chamavam-lhe, depois, Boca do Inferno. Mas antes disso, era só o esconderijo do feio.
Feio, sim. Mas não feio de feição apenas — feio de alma, de feitio, de feitiço. Um homem que não era bem homem, mas sombra de homem, com olhos de vidro e uma bola de cristal que via mais do que devia. Morava num castelo que não se via, porque se escondia entre os ventos e os gritos das gaivotas. E esse homem, um dia, quis casar.
— Quero a mais bela — disse ele à bola, que girava e brilhava como olho de serpente.
E a bola mostrou-lhe: uma menina de luz, nascida em Cascais, com cabelos de sol e voz de água doce. O feio não foi — mandou. Um cavaleiro, de ferro e silêncio, foi buscá-la. Raptou-a como se colhesse flor em jardim alheio.
A menina, ao ver o feio, tremeu. Não de frio, mas de pavor. Disse não, com todas as letras do medo. E o feio, que não sabia perder, trancou-a numa cela funda, de pedra e esquecimento. E pôs à porta um outro cavaleiro — este sem rosto, sem saber quem guardava.
Mas o tempo, que é bicho curioso, foi passando. E o cavaleiro, um dia, quis ver. Abriu a cela, e viu. E ao ver, amou. E ao amar, fugiu — com ela, num cavalo branco que parecia feito de nuvem e coragem.
O feio, ao ver na bola o que se passava, rugiu. Mas não rugiu com a boca — rugiu com a terra. Rasgou o chão com a raiva. E o chão, obediente, abriu-se. Engoliu o castelo, os gritos, os ecos. Ficou só a fenda, a boca. Boca de pedra, de espuma, de inferno.
E dizem que até hoje, quem se chega à beira da Boca do Inferno, ouve o sussurro da menina, o galope do cavalo, e o urro do feio — que ainda procura, na bola quebrada, o que perdeu por não saber amar.