[Rami]
Contam que um homem, desses de olhar encalhado na distância, se perdeu certo dia não por erro, mas por vontade. Chamava-se Nada, apelido que ganhou por ter carregado a vida inteira um silêncio maior que ele.
Foi andando, beirando as dobras do cerrado, por vereda que se fazia e desfazia, feito pensamento antigo. Até que encontrou o Ancião, um desses que não envelhece: só muda de poeira.
O velho, sentado numa pedra de tempo, disse:
— Vem. Te ensino sem palavra, onde é que gira essa dança.
Nada, acostumado ao calado, estranhou um convite sem boca. Mas sentiu, pelos pés, que a terra sabia mais do que qualquer voz.
— Olha — disse o velho, apontando o vazio cheio — as poeiras, os insetos, até as sombras... tudo dança sem saber por quê. Mas sabe. Porque ama.
E Nada viu que girava também, mesmo parado.
O velho continuou:
— Tu és feito de camadas. Foste pedra, depois raiz, depois bicho. Agora és homem. E ainda assim, acha que és só esse corpo de pó? Que nada... Tu és escada para o céu. Só que toda escada sobe por dentro.
A cada palavra, Nada se sentia menos. E sendo menos, era mais. As mãos lembraram o que o coração sempre soube. E, sem dizer, ele compreendeu: alma fala sem língua, alma se entende com silêncio.
— Mas e depois? — pensou Nada.
O Ancião sorriu nos olhos:
— Depois, és anjo. E depois disso, nem nome tem. Só luz.
Foi então que a noite caiu de manso. Nada se assentou junto ao Ancião e outros tantos que haviam chegado por caminhos que não existem no chão. Via-se só os olhos, brilhando, como mineiros de rubi.
E ali ficaram. Não andando, mas indo. Porque às vezes, o que leva a gente adiante, é parar.