Todas as manhãs, insólitas e repetidas, como quem caminha não só por fora mas por dentro de si, ele cruzava o trecho da rua onde se encostava, discreta e ancestral, uma tenda de chás e especiarias. Não era comércio apenas — era rito. Mesmo quando cerrada, a tenda exalava vapores invisíveis, aromas que se desprendiam das paredes como almas de ervas, pairando no ar feito encantamento. Os cheiros, esses sim, não respeitavam fronteiras: saíam, dançavam, saudavam os passantes com reverência de templo. E quem passava, mesmo sem saber, se curvava — não ao lugar, mas ao mistério.
A moça, quase sempre à porta, era figura de aparição. Alta, cabelos longos e loiros como palha de sol, sorriso de quem sabe mais do que diz. Seus olhos, atentos, não olhavam: escaneavam. Como radar de alma, ela lia o coração dos que vinham, e oferecia não chá, mas consolo. Era ciência e feitiço. Dizia, com voz de brisa:
— Hoje, chá preto. Forte. Estimulante. Pra acordar o que dorme em você.
Noutra feita, vinha com rooibos, e explicava com paciência de sábia:
— Não é chá, não tem teína. Mas é abraço em forma líquida.
Ela não vendia. Ela curava. Sabia, como quem nasceu sabendo, o que cada um precisava. Era moça, mas por dentro era velha — velha como as montanhas, como os saberes que não se aprendem, apenas se lembram. Era alquimista da alma, feiticeira do cotidiano. E ele, homem de rotinas e silêncios, passava sempre por ali. Não por hábito, mas por necessidade. Porque ali, naquela esquina de aromas e olhos atentos, sua alma encontrava abrigo. E o coração, esse bicho indomado, se deixava afagar.