Parte II: O Cavaleiro e o Sal
Chamava-se ele Sirgílio, o cavaleiro que guardava sem saber. Homem de poucas falas, criado entre monges e marés, com o rosto sempre virado para o poente, como quem espera que o sol lhe diga um segredo. Não sabia de amor, nem de beleza — só sabia de vigiar, de obedecer, de calar.
Mas o tempo, esse bicho que rói tudo, até a pedra, foi-lhe roendo a curiosidade. E um dia, quando o vento sussurrava nomes que ele não conhecia, Sirgílio abriu a cela.
E viu.
Ela chamava-se Mariana, mas o nome era pouco para o que ela era. Era feita de luz que escapa entre as frestas, de cheiro de flor que só nasce em sonho. Os olhos dela — ah, os olhos! — tinham a cor do mar quando o céu está triste.
— Quem sois? — perguntou ele, com a voz que parecia pedra rolando.
— Sou a que foi tirada do mundo — disse ela, sem medo. — E tu?
— Sou o que nunca soube ser.
E nesse instante, o tempo parou. Ou fingiu que parava, só pra ouvir melhor.
Fugiram. Montaram no cavalo branco, que se chamava Alvoroço, e que tinha nas patas o som do trovão e nas crinas o cheiro da liberdade. Galoparam por entre penhascos e ventos, com o feio vindo atrás — não com os pés, mas com a fúria. Porque o feio, agora, era só isso: fúria.
E a fúria dele rasgou o chão.
A terra abriu-se como boca faminta. Mariana gritou, mas não de medo — de desafio. Sirgílio puxou as rédeas, mas o chão já não era chão. Era abismo. Era fim.
E caíram.
Mas não morreram.
Dizem que o mar os acolheu. Que Mariana virou espuma, e Sirgílio virou rocha. E que o cavalo branco ainda galopa nas ondas, nas noites de lua cheia, levando os dois nos olhos de quem ousa amar.
E o feio? O feio ficou preso na fenda, entre o mundo e o inferno, com a bola de cristal rachada, vendo só o que perdeu. E a Boca do Inferno, essa, continua aberta — não pra engolir, mas pra lembrar.
Porque o amor, quando é de verdade, nem o inferno engole.