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Vá pensamento...

Acordei com o som de um saxofone imaginário, tocando dentro da minha cabeça, como se Coltrane tivesse invadido meus sonhos e deixado um rastro de ouro no teto do quarto. O sol ainda não tinha coragem de nascer, mas eu já estava na rua, com os bolsos vazios e o coração cheio de lembrança — lembrança da terra que nunca vi, mas que me chama como um grito antigo, como um nome esquecido.
Va, pensiero, vai, pensamento, disse eu, sussurrando para o vento que soprava entre os prédios sujos da cidade. Vai, pensamento, voa com asas douradas sobre os telhados rachados, pousa nos morros onde o cheiro da infância ainda mora, mesmo que a infância tenha sido roubada por dívidas e cigarros e amores que não souberam ficar.
Eu caminhava como quem procura redenção num beco sem saída. As margens do Jordão? Nunca vi. Mas sinto. Sinto como se estivessem dentro de mim, como se cada passo fosse uma saudação às torres de Sião, caídas como os sonhos dos poetas bêbados que escrevem com sangue e café.
Ó minha pátria, tão bela e tão fodida, pensei, enquanto um velho me oferecia um cigarro e um sorriso sem dentes. Ó lembrança, tão cara e tão fatal, como uma mulher que te ama só até o fim da noite. A harpa dos profetas? Está pendurada num poste, calada, esperando que alguém a toque com dedos sujos de tinta e esperança.
Por que estás muda, harpa? Por que não gritas? Por que não cantas o tempo que foi, o tempo que ainda é, o tempo que talvez nunca seja? Reacende, memória, reacende esse fogo que arde no peito dos que ainda acreditam, mesmo que não saibam no quê.
E se Jerusalém caiu, que caia também este mundo, mas que caia com música, com lamento cru, com jazz triste tocado num porão cheio de fumaça. Que o Senhor, se estiver por aí, inspire um canto — não para consolar, mas para dar força, para ensinar a sofrer com estilo, com dignidade, com virtude.
Virtude no sofrimento. Virtude na espera. Virtude no caos.
E eu sigo, com os sapatos furados e a alma em combustão, porque às vezes, só às vezes, o pensamento voa mesmo. E quando voa, tudo faz sentido. Mesmo que só por um segundo.

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