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O vento e o tempo.

O vento, que não era só vento, mas também voz e também memória, soprava por entre as muralhas de Tomar como quem sabe demais e diz de menos, como quem já viu o princípio e o fim e ainda assim continua soprando, porque é da sua natureza não parar, e quem somos nós para contrariar o que é vento? E o sol, esse que não brilha por vaidade mas por ofício, filtrava-se tímido, quase envergonhado, por entre as frestas do tempo, como quem pede licença para existir, e existia, sim, mas em partículas, em farelos de luz que dançavam como incenso em templo esquecido.


E o homem, que não era homem comum, mas também não era santo, nem cavaleiro por nome, mas por alma, esse homem despertava, ou melhor, voltava, porque há quem durma e há quem viaje, e ele viajava, não por estrada, mas por dentro, por dentro de si e por fora do mundo, e voltava agora, devagar, como quem retorna de um lugar onde o tempo não tem pressa e o silêncio tem nome.


O corpo, esse que é sempre mais lento que a alma, esperava, e a alma vinha, cambaleante, como quem atravessa desertos invisíveis, e se encaixava, como espada em bainha, como verbo em oração, como destino em mapa antigo. E os sonhos, que são sempre mais verdadeiros que os dias, evaporavam-se como névoa sobre o Tejo, lavados pelo rio que não é rio, mas esquecimento, e o homem esquecia, não tudo, mas o suficiente para continuar.


O dia, esse que não chega, mas invade, veio como vêm os inquisidores, sem pedir, sem sorrir, com peso e com prova. E não era dia, era desafio, era sombra, era espelho. E ele soube, porque há coisas que não se aprendem, apenas se reconhecem, e reconheceu que aquele dia queria ficar, queria marcar, queria ser mais que passagem.


Mas não ficou. Porque o homem, que era feito de voto e silêncio, pegou o alforge, que já sabia demais, e o chapéu, que era quase manto, e seguiu, não por estrada, mas por rito, porque sua rotina não era rotina, era liturgia, e cada gesto, cada passo, cada tarefa, era como quem escreve com o compasso do Grande Arquiteto, aquele que desenha estrelas e destinos com a mesma mão.


E então, como quem tropeça em pedra que não devia estar ali, ele errou. Um erro pequeno, quase nada, mas erro. E o erro, que é sempre mais do que parece, corroeu-lhe a alma como água que fura rocha, não por força, mas por tempo, e o tempo, naquele instante, virou eternidade. E ele, que era feito de rigor e rito, sentiu-se quebrado, não pelo mundo, mas por si, porque há dores que não vêm de fora.


O dia seguiu, como seguem os dias, mas para ele não seguiu, arrastou-se, e cada segundo era século, e cada pensamento era multidão. E no fim, quando o sol já não era sol, mas lembrança, ele olhou para dentro, e viu que o erro não era fim, mas início, e que o julgamento, esse que fazemos com tanta pressa, é sempre mais cruel que justo.


E então, como quem destila veneno até virar cura, ele transformou o erro em ensinamento, e o ensinamento em sabedoria, e a sabedoria em silêncio. Porque o erro é mestre disfarçado, e que há pedras que só revelam o ouro quando quebradas.

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