Foi assim, sem alarde e sem pressa, que ele cruzou o limiar do escritório, um espaço que até então lhe era vedado, como se houvesse uma ordem tácita que separava aqueles que vendiam daqueles que compravam, e agora, por um instante, esse véu de separação se desfazia. Carregava consigo suas malas de mostruário, um pequeno universo de tecidos que, dobrados e organizados, aguardavam o momento de revelação, e ali, entre mesas de trabalho e cadeiras que mantinham sua posição sem jamais reclamar cansaço, encontrou um espaço suficiente para abrir seu arsenal de cores, texturas, padrões, cada tecido trazendo consigo um fragmento de história, mãos que os haviam tecido, olhos que os haviam escolhido, vidas que se desenrolavam na trama silenciosa dos fios.
As mulheres ali presentes — uma, talvez a dona da loja, a outra jovem, bela, loira de cabelos longos — trabalhavam alheias à sua presença, mergulhadas em cálculos, notas fiscais, papéis que ordenavam o fluxo do comércio, mas à medida que ele começava sua exposição, havia um sutil deslocamento no ar, uma mudança imperceptível, como se o tempo hesitasse entre seguir seu curso ou dobrar-se sobre si mesmo. A dona da loja observava, avaliava, comentava, suas mãos ora tocando os tecidos, ora buscando referências na memória, e entre um gesto e outro, ele sentiu-se atraído pelo olhar da jovem, não um olhar qualquer, não apenas a curiosidade comercial de quem avalia novidades, mas algo mais profundo, um refúgio, um lar, uma sensação de retorno a um lugar que ele não sabia onde era, mas que conhecia de maneira incontestável.
A apresentação prosseguiu, os tecidos desvendando suas formas e possibilidades, e ao final, num gesto tão comum e trivial que poderia passar despercebido, a dona da loja pediu que a jovem o acompanhasse até a saída. E foi ali, na despedida, naquele instante onde os passos se desaceleram e o olhar busca uma última confirmação antes da separação inevitável, que ele soube, sem compreender, que aquela mulher já lhe pertencia de alguma forma, não por posse, não por história que se possa contar, mas por algo que transcende, talvez um encontro de almas que já se cruzaram em outros tempos, em outras dimensões, onde não havia necessidade de nomes ou explicações.
Mas ela não deu sinal algum de reconhecimento, não havia eco no olhar dela que lhe confirmasse suas certezas, apenas um sorriso gentil, um gesto amável, como se sua presença ali fosse apenas um sopro leve em meio à rotina que seguiria indiferente àquele encontro, enquanto ele, já do lado de fora, carregava consigo o peso de uma memória que não lhe pertencia completamente, um olhar perdido pelos séculos, uma pergunta que permaneceria sem resposta.