Naquela manhã, que não era azul nem cinza nem qualquer outra cor que se possa nomear com precisão, pois o céu se apresentava como uma paleta de tons indecisos, como se o pintor tivesse deixado a obra inacabada ou, quem sabe, tivesse mudado de ideia no último instante, os sons pareciam vir de longe, não por distância física, mas por uma espécie de recuo da realidade, como se o mundo tivesse decidido falar mais baixo, talvez por respeito, talvez por cansaço, e entre os diálogos que se travavam entre ele e a parceira, diálogos que não eram apenas palavras mas também silêncios e olhares e gestos que se entendem sem tradução, ele filosofava, como costumava fazer, sobre o acaso, esse velho conhecido que se disfarça de surpresa, e sobre as armadilhas que o destino, com sua paciência infinita, coloca diante de nós como quem joga xadrez com o tempo, e citou, não com revolta mas com uma espécie de resignação crítica, a quantidade de noticiários que se dedicavam às tragédias sociais, como se o sofrimento fosse o único alimento da audiência, e os jornalistas, esses sacerdotes modernos, davam relevância ao tema com a solenidade de quem anuncia o fim dos tempos, mas eles, o casal, não queriam entrar nessa vibração, palavra que aqui significa estado de alma, desligaram a televisão, não por indiferença mas por preservação, e resolveram tomar o pequeno-almoço num hotel, desses que servem café com pão quente e silêncio acolhedor, pegaram o carro e partiram, não rumo a um destino mas a uma experiência, que é como o tempo se revela quando não se espera nada dele.
No caminho, que se desenhava tranquilo como se a cidade tivesse dormido demais e acordado sem pressa, ele, que era motorista antigo, desses que conhecem os perigos não pelos livros mas pelas curvas da vida, mantinha a velocidade moderada, não por obrigação mas por filosofia, porque acreditava que a pressa é irmã da imprudência e que a estrada, como a existência, merece respeito, e eis que, num cruzamento que não tinha nada de especial, um cruzamento como tantos outros, onde a rua por onde ele vinha era de mão única, surge, como quem desafia a lógica e a sorte, uma pequena motocicleta com dois jovens sem capacete, que entraram na contramão com velocidade que não se mede em números mas em imprudência, e literalmente se colocaram diante do veículo, e tudo aconteceu em milésimos de segundo, tempo que não se conta mas se vive, e ele desviou, não por reflexo mas por instinto, e seguiu pela rua como quem escapa de um destino que não era seu, e na esquina havia um senhor, desses que caminham com o peso dos anos e a leveza da contemplação, que ficou petrificado ao ver a cena, como se o tempo tivesse parado para que ele pudesse entender, e todos os indícios apontavam para uma tragédia, os garotos alçariam voo e se estatelariam no asfalto, mas nada disso ocorreu, porque o acaso, esse mestre invisível, decidiu ensinar sem ferir.
E então, como quem retorna de uma travessia, o casal tomou o pequeno-almoço no hotel, e o pão tinha o sabor da vida, e o café, o aroma da gratidão, e naquele instante, que não era mais manhã nem tarde mas apenas tempo suspenso, agradeceram, não aos anjos com asas mas à presença que tudo vê e nada julga, e entenderam, sem palavras, que viver é aceitar o mistério, e que cada minuto é uma dança entre o que somos e o que ainda não sabemos ser, e que o verdadeiro milagre não é escapar da morte, mas reconhecer a vida quando ela nos olha nos olhos.