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Fio Invisível - Terceiro movimento

 

I

Disse-lhe ele, depois de muitos dias calados, e talvez nem dissesse com voz, mas com aquele olhar de quem já perdeu estrada e mesmo assim segue, minha senhora, não sei o nome que a senhora carrega, e pouco importa, pois nome é vento e o que permanece é o peso do silêncio entre as mãos, nunca lhe contei de onde vim porque a senhora tampouco perguntou, e se tivesse perguntado talvez eu dissesse qualquer coisa bonita, para parecer digno de seus modos, mas agora, que o tempo afrouxou minha vaidade, lhe digo com clareza: de onde venho já passou, a poeira se assentou, e o que fica é esse hoje que se faz caminho.

Venha, traga o que é seu, não digo bens pois bens são lastros e o que temos é vento, traga sua lembrança, sua sede, sua paz inquieta, e venha morar comigo, não no sentido de paredes e telhado, mas num canto da serra onde a alma pode se despir sem vergonha, onde o Sol entra pelas frestas e os dias se desenham no chão de terra batida, e lá há um espaço pequeno, sim, porque o essencial não ocupa largura, mas se for preciso a gente aumenta depois, como se faz com o coração quando o amor cresce devagarinho, sem fazer barulho.

Tenho um violão, não sei tocar muito, mas ele faz companhia às noites de Lua, que são muitas por lá, e há uma varanda onde o tempo senta, e a gente com ele, sem obrigação de dizer coisa alguma, só estar, só ser, como Deus quando decide não falar e ainda assim se faz escutado.

Veja, senhora, meiga que é, doce que talvez esconda espinhos como toda flor que dura, o que lhe ofereço não é promessa, é caminho, e o caminho não se explica, caminha-se, e mesmo quando se está parado, caminha-se por dentro, como os sufis que giram e giram sem sair do lugar porque o ponto de chegada está dentro deles.

Se vier, não venha por mim, mas por si, pois ao se juntar a mim na palhoça da alma, estaremos juntos e ainda assim livres, como quem dança sem perder o eixo, como quem ama sem possuir, e nisso, minha senhora, estará nossa eternidade breve.


II

E foi então que, num inicio de primavera de céu infinito, ela chegou.

Não bateu palma, nem chamou — apenas esteve. Um vulto de vestido amarelo, sandálias que sabiam a poeira de outros caminhos, e o cabelo preso como quem tem pressa e calma ao mesmo tempo. Trazia uma mala pequena, dessas que não carregam quase nada e, por isso mesmo, carregam tudo. E ali dentro vinham duas xícaras, um pano de prato com cheiro de casa, e um livro sem capa onde alguém tinha escrito, com letra trêmula, “não esqueças de ti”.

Ele a viu encostada na cerca, os olhos dela perdidos em alguma coisa que não era a paisagem, mas um tempo interior, como se estivesse vendo o depois.

— Então veio, disse ele.

— Vim, disse ela.

Ficaram uns segundos sem fazer movimento. O silêncio era espesso, como se tivesse carne. E só então ele abriu o portão, não com as mãos, mas com o peito — porque o gesto de receber não se faz com metal, e sim com espaço.

Entraram. A varanda parecia sorrir com a chegada. O violão — esse já se afinava sozinho, encantado com a novidade. Ela pousou a trouxa sobre o banco de madeira que gemia de velho. E então se sentaram. Um do lado do outro, mas não rente. Entre eles ainda havia o espaço do que ainda não sabiam do outro.

— Sabe, disse ela, eu nunca soube morar em ninguém.

— E por isso mesmo, respondeu ele, é que aqui tem chão.

Naquela noite, a Lua apareceu tímida, como quem espreita um segredo recém-nascido. E ali, naquela varanda acesa de silêncio eloquente — como dizia um mestre do deserto — a dança do que é inteiro mesmo sendo metade.

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