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Chegança

 Ao fim do dia, ele atravessa as ruas com o peso das horas acumuladas nos ombros, os cálculos e as cifras ainda ecoando na mente, o trânsito desenhando um labirinto onde cada rosto é um reflexo da urgência de chegar. O sol, resistente na sua despedida, espalha uma luz dourada sobre os prédios, como se quisesse testemunhar os últimos passos de quem busca o regresso.

A porta se abre, e ali está ela, não uma figura qualquer, mas a própria essência de casa, um santuário erguido na carne e no olhar. Alta, esguia, dona de um corpo que parece talhado pelo próprio tempo para ser refúgio e desejo, os cabelos loiros fluindo como ondas que capturam e libertam, o brilho deles refletindo a última luz do dia, quase sobrenatural. O rosto carrega o mistério e a promessa, o sorriso não apenas desenhado, mas entregue, feito chave que destranca qualquer vestígio de cansaço.

Os olhos, astutos e brilhantes, são como mapas onde se perdem e se encontram todos os caminhos, onde o mundo inteiro parece contido numa única expressão. O corpo veste a delicadeza com uma leveza calculada, cada gesto uma coreografia silenciosa de bem-estar, uma dança que não precisa de música para embalar.

O abraço que ela lhe dá não é só gesto, é território conquistado, um espaço onde todo o tempo anterior se dissolve, onde não há cálculos, nem pressa, nem urgência, apenas presença. E os beijos, ah, os beijos, são cais onde ele aporta, são certezas no meio da inquietude dos dias, são prova irrefutável de que tudo que veio antes serviu apenas para conduzi-lo até ali.

E assim, sem necessidade de grandes palavras, o dia se refaz, não apenas termina, mas se justifica, encontra sua razão no simples fato de haver chegada.


Lisboa, 19 de maio 25


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