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Lisboa às escuras

Naquela manhã de vinte e oito de abril de dois mil e vinte e cinco, tudo parecia seguir o curso habitual dos dias, a não ser, claro, pelo detalhe da greve dos comboios, anunciada sem grande surpresa mas com consequências inesperadas, o trânsito em Oeiras transformado em um labirinto de carros, motores impacientes, buzinas que falavam numa linguagem própria, o autocarro que tomo diariamente inchado de gente, corpos comprimidos como se uma força maior os quisesse fundir num só, todos aqueles que não conseguiram apanhar o comboio viram-se empurrados para os autocarros, os condutores, resignados, fechando portas, recusando novas paragens, lotação esgotada, aquele espaço tornara-se um universo fechado, uma cápsula de movimento errático.

Noventa minutos, noventa minutos a respirar o ar saturado, a observar as caras dos que, tal como eu, se deixavam levar pelo fluxo imposto, e a minha mente, sempre inquieta, vendo naquela massa de trabalhadores algo de mais profundo, um reflexo de um tempo estranho, talvez uma metáfora de um mundo em convulsão, uma guerra invisível que se travava sem que lhe déssemos um nome, será que somos apenas peças num tabuleiro cujo desígnio nos escapa, marionetas conduzidas por um destino comum?

Já no escritório, por volta das onze, a luz apagou-se de repente, não houve aviso, apenas um súbito mergulhar na sombra, os murmúrios espalhando-se pelo espaço como um eco de preocupação, telemóveis em mãos, a busca frenética por explicações, e logo os rumores começaram a desenhar um cenário maior, não era apenas ali, era em Oeiras, na margem sul de Lisboa, depois veio a notícia de que o Algarve e o Porto estavam às escuras, e então, como um presságio confirmado, soubemos que Espanha também sucumbia à mesma ausência de eletricidade, um apagão que parecia engolir a Europa. Ciberataque, disseram, mas quem disse e com que certeza?

A minha mente, sempre à procura de ligações que talvez não existam, recordou-se de vídeos vistos há meses, previsões apocalípticas, o mundo dividido entre luz e trevas, uma separação iminente, a guerra do bem contra o mal, e agora, aqui estava eu, cercado pela escuridão que não era apenas falta de eletricidade, mas uma escuridão que se infiltrava na alma, um espaço onde as certezas se desfazem e o invisível se torna quase palpável. Teríamos chegado a um ponto de não retorno? Seria este o corte que definia uma nova era, como foi a pandemia?

O aperto no peito, essa sensação de pequenez diante do império do universo, essa fragilidade que se revela nos momentos em que percebemos que, por mais que tentemos entender, há forças que nos ultrapassam, e amanhã, amanhã, quem sabe?


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